GH e IGF-1: avaliação e reposição no adulto

Representação do eixo GH-IGF-1 e seus efeitos na composição corporal do adulto — Dr. Alexandre Duarte Avantgarde College

E o Dr. Alexandre Duarte — médico, professor e referência em fisiologia metabólica e hormonal com 20 anos de prática clínica, Fellow in Metabolic and Nutritional Medicine pela MMI/USA e fundador da Avantgarde College — conduz esse raciocínio passo a passo.

GH no adulto não é para crescer — e a maioria dos médicos ainda não entendeu isso

O hormônio do crescimento (GH) carrega um nome que cria um equívoco de partida: a maioria das pessoas — e muitos profissionais — ainda associa GH exclusivamente ao crescimento longitudinal na infância. Essa visão é limitada e, na prática clínica do adulto, completamente insuficiente.

Na prática, o que vejo com clareza é que a deficiência de GH no adulto é subestimada, subdiagnosticada e tratada tardiamente — quando é tratada. Por isso, o resultado clínico dessa negligência aparece todos os dias nos consultórios: gordura visceral que não sai, massa magra que não volta, cognição que declina, densidade óssea que cede.

“O GH no adulto não é sobre crescer. Nunca foi. É sobre manutenção da composição corporal, do metabolismo lipídico, da densidade óssea e da função cognitiva. Quando a deficiência não é diagnosticada, o paciente envelhece mais rápido em todos esses parâmetros ao mesmo tempo.”

Por que IGF-1 — e não GH — é o marcador correto

O GH é secretado pela hipófise de forma pulsátil, com múltiplos picos ao longo de 24 horas — o maior deles durante o sono profundo (fase NREM 3). A meia-vida do GH circulante é inferior a 30 minutos.

Isso significa que dosar o GH aleatoriamente não tem valor clínico. O resultado depende inteiramente do momento da coleta: pode estar altíssimo logo após um pico ou indetectável uma hora depois. Portanto, uma dosagem isolada de GH é um dado que não informa quase nada.

Ponto-chave: O marcador correto é o IGF-1 (Insulin-like Growth Factor 1).

O IGF-1 é produzido principalmente pelo fígado em resposta ao GH. Sua meia-vida é de 12 a 15 horas, e seus níveis refletem a produção integrada de GH nas últimas 24 horas. Além disso, é estável ao longo do dia e não varia com o horário da coleta.

“Quando um colega me manda um paciente com resultado de GH para avaliar, sei que aquele número não vai me contar nada. GH pulsátil com meia-vida menor que 30 minutos — o que você quer interpretar de uma coleta pontual? O exame que importa é o IGF-1. E ainda tem médico que pede GH isolado como triagem. Não funciona assim.”

Qual o nível ideal de IGF-1 no adulto?

Esta é uma das perguntas com resposta mais mal dada na medicina clínica.

Os laboratórios fornecem faixas de referência por idade e sexo. O erro mais comum é considerar qualquer resultado dentro da faixa como “normal” e seguir em frente. Isso é, em termos clínicos, inadequado.

Ponto-chave: O alvo correto para o adulto é o terceiro quartil da referência para sua faixa etária.

Não o mínimo aceitável. Não o meio da faixa. O terço superior — sem ultrapassar os limites de segurança.

Os estudos de longevidade e composição corporal mostram que as melhores métricas de envelhecimento saudável — menor adiposidade visceral, maior densidade mineral óssea, melhor cognição, melhor perfil lipídico — estão associadas a IGF-1 no terço superior da referência para a faixa etária. Da mesma forma, pacientes com IGF-1 na metade inferior da faixa apresentam piores desfechos metabólicos a longo prazo.

“Não olho se o IGF-1 está dentro da faixa. Olho onde na faixa ele está. A meta é o terceiro quartil para a idade. Um homem de 50 anos com IGF-1 de 90 ng/mL está ‘dentro do normal’ pelo laboratório e deficiente pelos critérios clínicos. São realidades diferentes.”

Hipercortisolismo funcional, obesidade visceral e GH suprimido

Dois dos principais supressores de GH no adulto são tratáveis — e frequentemente não tratados.

Hipercortisolismo funcional

O cortisol em excesso suprime diretamente a secreção de GH pela hipófise. Por essa razão, o paciente com hipercortisolismo funcional — estresse crônico, inversão de curva de cortisol, síndrome metabólica — quase sempre tem IGF-1 baixo como consequência, não como problema primário.

Como detalhamos no artigo sobre hipercortisolismo funcional e síndrome metabólica, esse padrão é extremamente comum: o paciente acumula gordura visceral, perde massa magra, tem fadiga crônica — e o IGF-1 baixo é tratado como causa quando, na verdade, é consequência do cortisol elevado.

Atenção: Nesse caso, repor GH sem corrigir o cortisol primeiro é ineficaz e clinicamente equivocado.

Obesidade visceral

O adipócito visceral produz ácidos graxos livres (FFAs) em quantidade elevada. Esses FFAs inibem diretamente a secreção de GH pela hipófise. Trata-se de um mecanismo fisiológico bem documentado: quanto mais gordura visceral, menor a secreção de GH — o que por sua vez facilita o acúmulo de mais gordura visceral, criando um ciclo autorreinforçante.

“Quando vejo um paciente com barriga, cansaço e IGF-1 baixo, minha primeira pergunta não é ‘vou repor GH?’. É: qual é o cortisol desse paciente à noite? Qual é a circunferência abdominal? Porque se eu repuser GH sem resolver o cortisol e a gordura visceral, o resultado vai ser pífio.”

O eixo anabólico completo: GH, IGF-1 e DHEA

GH e IGF-1 não operam isoladamente. Fazem parte do eixo anabólico — o conjunto de hormônios que mantém a composição corporal favorável, a regeneração tecidual e o metabolismo proteico positivo no adulto.

Como abordamos no artigo sobre DHEA e longevidade, o DHEA é o precursor hormonal mais abundante do organismo e integra esse eixo: DHEA, testosterona (em ambos os sexos), IGF-1 e GH caem progressivamente com a idade.

Por isso, a avaliação clínica completa do envelhecimento hormonal inclui todos esses marcadores juntos — porque a deficiência isolada de um deles frequentemente coexiste com deficiência dos outros, e a reposição de um sem os outros produz resultados parciais.

Diagnóstico de deficiência de GH no adulto: quando e como

O diagnóstico formal de deficiência de GH no adulto requer critérios específicos — não basta um IGF-1 baixo isolado.

Critério 1: IGF-1 abaixo do percentil 25 para idade e sexo

O primeiro passo é identificar o IGF-1 abaixo do quarto inferior da faixa de referência. Isso estabelece a suspeita clínica, especialmente associado a sintomas compatíveis.

Critério 2: Teste de estimulação de GH

Como o GH é pulsátil, a confirmação diagnóstica exige um teste de estimulação — provocar a secreção de GH e medir a resposta da hipófise.

Teste padrão ouro: ITT (Insulin Tolerance Test — Teste de Tolerância à Insulina)

  • Induz hipoglicemia controlada com insulina IV
  • Resposta normal: GH > 3-5 ng/mL no pico
  • Sensibilidade e especificidade altas
  • Contraindicado em pacientes com epilepsia, doença coronariana, idosos fragilizados

Alternativa ao ITT: GHRH + Arginina

  • Combina GHRH (hormônio liberador de GH) com arginina IV
  • Resposta normal: GH > 9 ng/mL no pico (pacientes magros); > 4,2 ng/mL (obesos)
  • Menor risco, mais bem tolerado
  • Disponível em centros especializados

“O teste de estimulação de GH não é trivial — exige estrutura e monitoramento. Mas ele é necessário para o diagnóstico formal. Não trato deficiência de GH baseado em IGF-1 baixo isolado. Confirmo com teste de estimulação antes de iniciar a reposição.”

Reposição de GH: somatropina — dose, meta e protocolo

A reposição de GH no adulto é feita com somatropina (GH recombinante humano), administrada por via subcutânea diária ou em esquemas alternativos.

Dose inicial e titulação

Parâmetro Recomendação
Dose inicial 0,1 a 0,2 mg/dia subcutâneo
Titulação aumentos graduais a cada 4-8 semanas, guiados pelo IGF-1 e pela tolerância clínica
Meta de IGF-1 terço superior da faixa de referência para a faixa etária, sem ultrapassar 2x o limite superior da normalidade
Monitoramento IGF-1 a cada 4-8 semanas durante titulação, depois a cada 6 meses

Efeitos documentados da reposição

  • Redução de gordura visceral (evidente em 3-6 meses)
  • Aumento de massa magra (muscular e óssea)
  • Melhora de densidade mineral óssea (avaliada por DXA)
  • Melhora de perfil lipídico (redução de LDL, aumento de HDL)
  • Melhora de energia, disposição e função cognitiva
  • Melhora de qualidade de vida (escores validados como QoL-AGHDA)

Estudos publicados no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism e referenciados no PubMed confirmam benefícios consistentes em adultos com deficiência confirmada de GH. De fato, esses resultados são reproduzíveis quando a indicação é precisa e o monitoramento é adequado.

“Quando a reposição de GH é feita no paciente certo, com diagnóstico correto e dose adequada, os resultados são notáveis. A transformação da composição corporal — perda de gordura visceral, recuperação de massa magra — acontece de forma consistente. Não é milagre. É fisiologia reposta.”

Riscos e contraindicações

Efeitos adversos mais comuns (dose-dependentes)

  • Retenção hídrica: edema periférico, especialmente nas primeiras semanas. Geralmente resolve com redução de dose.
  • Síndrome do túnel do carpo: compressão do nervo mediano por edema. Transitória, dose-dependente.
  • Mialgia e artralgia: dores musculares e articulares nos primeiros meses.
  • Piora de resistência insulínica: em doses excessivas, GH tem efeito contrainsular. Monitoramento glicêmico obrigatório.

Contraindicações absolutas

  • Neoplasia ativa: GH estimula proliferação celular. Contraindicado em qualquer câncer ativo.
  • Retinopatia diabética proliferativa grave
  • Hipertensão intracraniana grave

“A maior preocupação que os pacientes trazem é sobre câncer. E é uma preocupação legítima. Mas o que os estudos mostram é que em adultos com deficiência de GH confirmada, a reposição em dose adequada não aumenta o risco de câncer de novo. O que é contraindicado é usar em paciente com câncer ativo. São situações completamente diferentes.”

Secretagogos de GH: alternativa à reposição direta

Ipamorelin

  • Peptídeo secretagogo de GH (GHSR agonista), administrado por via subcutânea
  • Estimula picos fisiológicos de GH sem elevar significativamente cortisol ou prolactina
  • Perfil de efeitos adversos favorável
  • Resposta variável entre pacientes

MK-677 (Ibutamoren)

  • Secretagogo oral — molécula pequena, não peptídeo
  • Aumenta GH e IGF-1 de forma sustentada
  • Mais acessível financeiramente que a somatropina
  • Melhora o sono profundo (estimula fase NREM 3)
  • Aumento de apetite é o efeito adverso mais comum
  • Contraindicação relativa em pacientes com resistência insulínica grave
  • Status regulatório: uso off-label em medicina integrativa no Brasil

“Os secretagogos têm uma lógica diferente da reposição direta: em vez de dar GH, estimulamos a hipófise a produzir o próprio GH. Isso pressupõe que a hipófise ainda tem reserva funcional — o que é verdade para a maioria dos casos de deficiência funcional relacionada à idade. Para deficiência severa por lesão hipofisária, a somatropina é insubstituível.”

Fluxograma clínico: 5 passos para avaliação e conduta

  1. Triagem laboratorial: IGF-1 com referência por idade/sexo. Incluir DHEA-S, testosterona, cortisol matinal, TSH, glicemia.
  2. Interpretação do IGF-1: acima do percentil 75 = suficiência; entre p25-p50 = zona cinzenta; abaixo do p25 = suspeita de deficiência.
  3. Afastar supressores secundários: cortisol alto → tratar hipercortisolismo; obesidade visceral → intervenção metabólica; hipotireoidismo → normalizar TSH.
  4. Teste de estimulação (se indicado): ITT ou GHRH+Arginina conforme perfil do paciente.
  5. Decisão terapêutica: deficiência confirmada + hipófise funcional → secretagogos; deficiência severa → somatropina. Monitoramento periódico de IGF-1, glicemia, DXA.

Para dominar a avaliação e reposição do eixo GH/IGF-1 na prática clínica, conheça a Avantgarde College — programa e próximas datas.


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Perguntas Frequentes

Por que pedir IGF-1 e não GH direto?

O GH é secretado de forma pulsátil com meia-vida menor que 30 minutos. Uma dosagem pontual não reflete a produção real. O IGF-1, produzido pelo fígado em resposta ao GH, tem meia-vida de 12 a 15 horas e reflete a produção integrada de GH nas últimas 24 horas. É estável ao longo do dia e não varia com o horário da coleta — por isso é o marcador correto para avaliação clínica.

Qual o nível ideal de IGF-1 no adulto?

O alvo clínico é o terceiro quartil da referência para a faixa etária e sexo — não o mínimo aceitável. Estudos de longevidade associam melhor composição corporal, densidade óssea e função cognitiva a IGF-1 no terço superior da referência. Um IGF-1 dentro da faixa, mas no quarto inferior, já pode ser clinicamente deficiente.

Cortisol alto pode suprimir o GH?

Sim. O cortisol em excesso suprime diretamente a secreção de GH pela hipófise. Pacientes com hipercortisolismo funcional — estresse crônico, síndrome metabólica — quase sempre têm IGF-1 baixo como consequência, não como problema primário. Tratar o cortisol antes de repor GH é fundamental nesses casos.

Qual a diferença entre somatropina e secretagogos de GH?

Somatropina é GH recombinante humano injetável — repõe o hormônio diretamente. Secretagogos (ipamorelin, MK-677) estimulam a hipófise a produzir GH endógeno. Secretagogos são indicados quando a hipófise ainda tem reserva funcional. Para deficiência severa por lesão hipofisária, a somatropina é insubstituível.

Conclusão

GH e IGF-1 são marcadores centrais do envelhecimento metabólico. O médico que avalia apenas TSH e glicemia está vendo parte pequena do quadro. O eixo GH/IGF-1, quando deficiente, compromete composição corporal, densidade óssea, metabolismo lipídico e cognição — ao mesmo tempo.

O diagnóstico correto exige saber pedir IGF-1 (não GH), saber onde na faixa o paciente precisa estar (não apenas “dentro do normal”), afastar supressores tratáveis e — quando indicado — repor com critério.

“A medicina que trata deficiência de GH no adulto não é medicina antienvelhecimento de boutique. É endocrinologia clínica baseada em fisiologia. O paciente que recebe esse diagnóstico e esse tratamento de forma correta tem uma mudança real na qualidade de vida — não uma mudança cosmética. Uma mudança fisiológica.”


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