E o Dr. Alexandre Duarte — médico, professor e referência em fisiologia metabólica e hormonal com 20 anos de prática clínica, Fellow in Metabolic and Nutritional Medicine pela MMI/USA e fundador da Avantgarde College — conduz esse raciocínio passo a passo.
O exame que não serve para nada — e o que realmente deve ser pedido
Toda semana um paciente chega ao consultório com queixa de cãibras, insônia, palpitações e ansiedade. O médico anterior pediu magnésio sérico. Resultado: normal. E aí o médico disse que não era magnésio. Errou feio.
“Magnésio sérico é o exame mais inútil que existe para avaliar status de magnésio. O mineral fica 99% dentro das células. Pedir magnésio no soro é como medir o estoque de combustível de um país olhando o que derramou na estrada.”
Ponto-chave: Na prática, o exame correto é o magnésio eritrocitário — magnésio dentro das hemácias, que reflete o compartimento intracelular.
A referência funcional utilizada na prática clínica é acima de 2,2 mg/dL de hemácia. Valores abaixo de 2,0 mg/dL indicam déficit real, independentemente de como esteja o magnésio sérico.
Atenção: Esse equívoco diagnóstico tem consequências diretas: pacientes com deficiência grave são liberados com “exames normais” e continuam com todos os sintomas sem tratamento.
Por essa razão, a escolha do exame correto desde o início muda completamente o desfecho clínico.
Por que o magnésio é tão crítico para o organismo
O magnésio é cofator de mais de 300 enzimas. De fato, são mais de 300 reações enzimáticas que dependem do mineral para funcionar. Entre as principais:
- Produção de ATP: toda a cadeia de produção de energia celular depende de magnésio. Sem ele, a célula não produz energia de forma eficiente.
- Síntese proteica e de DNA: a replicação do material genético e a construção de proteínas exigem magnésio como cofator.
- Regulação do cálcio intracelular: magnésio e cálcio trabalham em equilíbrio. Quando o magnésio cai, o cálcio invade as células — e é aí que aparecem espasmos, contrações e palpitações.
- Condução nervosa: a transmissão dos impulsos elétricos nos neurônios e nas células musculares depende da homeostase do magnésio.
“Quando o paciente chega com fadiga, ansiedade, cãibras, insônia e palpitações ao mesmo tempo, o magnésio eritrocitário é o primeiro exame que peço. Na maioria dos casos, está baixo. E a melhora depois da reposição é dramática.”
Sintomas que o médico trata com remédio, mas que são deficiência de magnésio
A lista de manifestações clínicas do déficit de magnésio é extensa. O problema é que cada sintoma isolado leva o médico a uma especialidade diferente, quando o problema é sistêmico. Em outras palavras, a fragmentação diagnóstica mascara uma causa comum e tratável.
Musculoesquelético
- Cãibras noturnas
- Espasmos musculares
- Fraqueza muscular generalizada
- Tensão cervical e lombar crônica
Cardiovascular
- Palpitações e extrassístoles
- Hipertensão arterial
- Vasoespasmo
Neurológico e psiquiátrico
- Insônia — magnésio é modulador do receptor GABA e do NMDA
- Ansiedade e irritabilidade
- Enxaqueca (vasoespasmo cerebral)
- Depressão de difícil controle
Metabólico
- Resistência insulínica — magnésio é cofator do receptor de insulina
- Constipação intestinal
- Hiperglicemia
“Quantos pacientes estão tomando ansiolítico, relaxante muscular, anti-hipertensivo e laxante ao mesmo tempo? Parte deles só precisa de magnésio.”
Quem perde mais magnésio — e quem o médico deve monitorar
Pacientes em uso de diuréticos
Diuréticos de alça (furosemida, bumetanida) e tiazídicos (hidroclorotiazida, clortalidona) aumentam a excreção renal de magnésio de forma direta. Portanto, todo paciente em uso crônico desses medicamentos deve ter o magnésio eritrocitário avaliado a cada 6 meses, no mínimo.
A ironia clínica é evidente: o paciente usa diurético para controlar hipertensão, perde magnésio, e a deficiência de magnésio agrava a hipertensão por promover vasoespasmo. Dessa forma, cria-se um ciclo que o médico raramente identifica.
Hiperaldosteronismo e aldosterona alta
A aldosterona alta aumenta a excreção renal de magnésio pelo túbulo distal — o mesmo mecanismo pelo qual causa hipocalemia. Além disso, hiperaldosteronismo primário (adenoma adrenal) ou secundário (hipertensão renovascular, insuficiência cardíaca) coexiste com déficit de magnésio em alta frequência.
Esse ponto tem relevância direta com o que discutimos no artigo sobre aldosterona e hipertensão refratária: pacientes com aldosterona elevada que não controlam a pressão mesmo com múltiplos anti-hipertensivos frequentemente têm déficit de magnésio associado, que contribui para o vasoespasmo e a resistência ao tratamento.
Outros grupos de risco
- Diabéticos tipo 2: hiperglicemia crônica aumenta a perda renal de magnésio via glicosúria
- Alcoolistas: déficit de absorção e aumento de excreção
- Uso crônico de IBP (omeprazol, pantoprazol): inibição da absorção intestinal de magnésio
- Doenças inflamatórias intestinais: má absorção crônica
- Estresse crônico: o cortisol elevado aumenta excreção renal de magnésio — veja também nossa discussão sobre o cortisol salivar na avaliação adrenal
Magnésio e tireoide: o cofator esquecido da conversão T4→T3
Um dado que poucos endocrinologistas discutem: o magnésio é cofator da deiodinase tipo 2, a enzima responsável pela conversão de T4 (tiroxina inativa) em T3 (triiodotironina ativa). Ou seja, sem magnésio suficiente, a conversão hormonal fica comprometida na raiz.
Pacientes hipotireoideos que fazem reposição com levotiroxina (T4) e continuam com sintomas — fadiga, ganho de peso, lentidão cognitiva — frequentemente têm conversão inadequada de T4 em T3. Portanto, antes de aumentar a dose de levotiroxina ou adicionar T3 sintético, o médico deveria verificar se o magnésio eritrocitário está na faixa ótima.
“Já corrigi casos de hipotireoidismo ‘refratário’ apenas repondo magnésio. A pessoa estava convertendo mal o T4, não porque a dose estava errada, mas porque faltava cofator para a enzima trabalhar.”
Formas de magnésio: qual prescrever e qual evitar
Ponto-chave: Não existe “magnésio” genérico. A forma química determina a biodisponibilidade, o local de ação e os efeitos colaterais.
Portanto, prescrever errado é tão problemático quanto não prescrever.
Bisglicinato de magnésio — primeira escolha para uso sistêmico
O magnésio quelado com dois aminoácidos glicina tem alta biodisponibilidade intestinal e é absorvido por via de aminoácidos (não competindo com o cálcio). Além disso, não causa diarreia nas doses terapêuticas. A glicina tem efeito neurinibitório independente, potencializando o efeito sobre insônia e ansiedade.
Indicado para: déficit sistêmico, insônia, ansiedade, cãibras, espasmos musculares.
Treonato de magnésio (L-treonato) — para cognição e sistema nervoso central
É a única forma de magnésio com capacidade documentada de atravessar a barreira hematoencefálica de forma eficiente. Consequentemente, eleva os níveis de magnésio no líquido cerebrospinal e aumenta a densidade de sinapses no hipocampo.
Indicado para: declínio cognitivo, enxaqueca, depressão, névoa mental (brain fog).
Malato de magnésio — para energia e dor muscular
A combinação com ácido málico (intermediário do ciclo de Krebs) tem indicação específica em fadiga crônica e fibromialgia. Da mesma forma, o malato favorece a produção de ATP mitocondrial.
Citrato de magnésio — boa biodisponibilidade, efeito laxativo moderado
Útil quando há constipação associada. Em termos clínicos, sua biodisponibilidade é superior ao óxido, mas inferior ao bisglicinato.
Óxido de magnésio — evitar para reposição sistêmica
Biodisponibilidade de apenas 4-5%. Assim, a maior parte do magnésio ingerido permanece no intestino, causando diarreia osmótica sem reposição intracelular efetiva.
“Quando o paciente diz que ‘tomou magnésio e não adiantou’, pergunto qual a forma. Nove em dez vezes era óxido. Não é que magnésio não funciona — é que ele tomou laxante pensando que era reposição.”
Dose terapêutica: quanto repor na prática
A dose terapêutica de magnésio elementar para correção de déficit é de 300 a 600 mg/dia, dividida em duas tomadas preferencialmente (maior tolerabilidade gastrointestinal e melhor absorção fracionada).
É importante observar que os rótulos de suplementos mostram o peso do composto inteiro, não do magnésio elementar. Por exemplo, um comprimido de 500 mg de bisglicinato de magnésio contém aproximadamente 100 mg de magnésio elementar. Portanto, o médico deve verificar o teor de magnésio elementar ao prescrever.
Protocolo prático:
- Dose inicial: 300 mg/dia de magnésio elementar (bisglicinato) por 60-90 dias
- Reavaliação com magnésio eritrocitário ao final do período
- Manutenção após correção: 150-200 mg/dia
- Pacientes em uso de diuréticos ou com aldosterona elevada: manutenção permanente com monitoramento semestral
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Perguntas Frequentes
O magnésio sérico nunca serve?
Serve em situações de emergência para rastrear hipomagnesemia grave (< 1,5 mg/dL sérico). Para avaliação de déficit subclínico e monitoramento de reposição, o magnésio eritrocitário é obrigatório. A referência funcional é acima de 2,2 mg/dL de hemácia — valores abaixo de 2,0 mg/dL indicam déficit real, independentemente do resultado sérico.
Magnésio interfere com outros medicamentos?
Pode reduzir absorção de antibióticos quinolonas e tetraciclinas — separar por 2 horas. Com bifosfonatos: mesmo intervalo. Não há interação clinicamente relevante com a maioria dos outros medicamentos.
Posso tomar magnésio à noite?
Sim. O bisglicinato tomado à noite potencializa o efeito sobre o sono pelo efeito da glicina no sistema nervoso central. É uma boa opção para pacientes com insônia associada ao déficit de magnésio.
Conclusão
A deficiência de magnésio é subdiagnosticada porque o exame padrão (sérico) não detecta déficit intracelular. O magnésio eritrocitário resolve esse problema diagnóstico.
A prescrição correta da forma química (bisglicinato para uso sistêmico, treonato para função cognitiva) na dose adequada de magnésio elementar (300-600 mg/dia) corrige déficits que se manifestam como um conjunto de sintomas habitualmente tratados com múltiplos medicamentos.
“Magnésio não é suplemento de academia. É mineral essencial que metade dos meus pacientes tem em déficit e que nenhum médico pediu corretamente antes de chegarem aqui.”


